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sábado, 15 de janeiro de 2011

Memória: No Bar Savoy

Circuito dos Poetas: Escultura de Carlos Pena Filho na Praça da Independência - Recife. A escultura é baseada no famoso poema "Chopp".

Nem éramos ainda tão homens nem éramos trinta como no poema de Carlos Pena, mas estávamos todos sentados no Bar Savoy, tomando chope.

Chope com ovo cozido. Em qualquer bar ou botequim do Recife, ovo cozido era o mais barato, higiênico (vinha na casca), saudável e, digamos, alimentício tira-gosto. Cozido n’água com colorau, a casca ficava alaranjada. Servido num pires com um montinho de sal. Era só quebrar a casca e dar uma encostada no sal antes de cada mordida.

Eu tinha 17 anos. Trabalhava de dia e estudava à noite (às sextas, aulas práticas). Éramos todos de esquerda. Ou seja, contra a ditadura militar. Tínhamos (ou deveríamos ter) lido Marx, Lênin, Mao etc., uma vez que andávamos com seus livros debaixo do braço, dentro de um jornal pra esconder dos agentes da ditadura. Imagine.

Intelectuais. Papo-cabeça, como se dizia naquele tempo. Tínhamos (ou deveríamos ter) lido Dostoiévski, Tolstói, Maiakovski etc. e, claro, Fernando Pessoa (afinal, ninguém é de ferro).

Em matéria de comportamento, todos existencialistas. Os livros de Sartre, Simone e Camus eram devorados e discutidos com fervor religioso. Escritores brasileiros, só os de esquerda. Todos. (Enquanto torcíamos a cara pra Manuel Bandeira, louvávamos Ferreira Gullar. Que injustiça!!!).

O que líamos ou deixávamos de ler não era, de fato, o mais importante. Importante era que todos nós, apesar de muito jovens, tínhamos posição e militância política pelas liberdades democráticas e contra as injustiças sociais. Alguns foram presos e torturados. Outros, assassinados. Enquanto muitos de nossa geração faziam de conta que não tinha nada acontecendo e nos chamavam de esquerda festiva.  Festa macabra, só sendo, para ter tantos mortos e feridos.

Numa sexta-feira como aquela, a gente começava a chegar ao Savoy aí pelas seis e meia, sete e ia ocupando as cadeiras e mesas da calçada. Literatura, cinema, festival de música, Pasquim, repressão e política eram os papos. Mais, muito mais, política. Chope, cerveja e ovo cozido. Aí pelas nove, dez, alguns levantavam acampamento e se mandavam, enquanto quem estava na faculdade ou trabalhava em jornal começava a chegar. Antes da meia noite, estavam todos na zona. Quer dizer, zona é modo de dizer. Tavam num bar da zona: Texas ou Silver Star. A bebida agora era rum com Coca-Cola, cuba-libre.

Mas naquela sexta foi diferente. A maioria não foi pra zona. O poeta chegou aí pelas nove. Tava de barba grande e com um camarada, também barbado, que ele apresentou como ator. Estavam trabalhando num filme produzido e estrelado por Aurora Duarte. “Everardo Norões tá indo pra Paris daqui a pouco; vamos pro aeroporto!”, foi logo convocando todo mundo, antes mesmo de sentar e pedir um chope ao garçom.

Pegamos dois táxis. No que eu estava, um Ford 48, éramos cinco no assento de trás, na base de um dentro e outro fora, sabe como é que é: alternando, um encostado e o outro na ponta do assento. Eu tava na ponta. Com a cara colada no encosto do assento da frente, onde iam o poeta e o ator. O táxi tinha acabado de passar pelo Largo da Paz, em direção à Ponte Motocolombó, quando o poeta tascou um beijo na boca do ator.

Tudo bem que éramos todos existencialistas e que preconceito era coisa de pequeno-burguês reacionário. Mas também não precisava ter sido assim, em close, ao vivo e a cores. Os dois barbados. Nem o poeta precisava ter dito: “Eu te amo”. Aguentei firme. Como todos dentro daquele carro, também banquei o que não tinha visto nada. “Beijo? Que beijo?”

Na sexta seguinte, Bar Savoy e zona.
 

Por Joca Souza Leão 

Sobre o autor - O recifense João Augusto Souza Leão largou o curso de Direito para estudar Publicidade e Marketing na Inglaterra e teve o mundo dos anúncios como foco de trabalho por mais de 40 anos, tendo conquistado dezenas de prêmios durante a carreira. Hoje escreve crônicas para jornais, revistas e blogs.

Publicado em 09.06.10 no site pe360graus, coluna Crônicas do Joca

1 Devaneios:

"(H²K) - Hamilton H. Kubo" disse...

Ah, quero um Bar Savoy para encontrar os amigos, prosear um bocado e destas prosas criar também versos.
Um amigo pode ser músico e musicar o que escrevemos, então poderemos cantar a poesia e não não somente escreve-los...

Beijos

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